POEMAS


     Vim pelo caminho difícil,

a linha que nunca termina,

     a linha bate na pedra,

a palavra quebra uma esquina,

     mínima linha vazia,

a linha, uma vida inteira,

     palavra, palavra minha.

 

         p. leminski em Distraídos venceremos.



Escrito por wilton às 08h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




      HAI

 

      Eis que nasce completo

e, ao morrer, morre germe,

      o desejo, analfabeto,

de saber como reger-me,

      ah, saber como me ajeito

para que eu seja quem fui,

      eis o que nasce perfeito

e, ao crescer, diminui.

 

 

      KAI

 

      Mínimo templo

para um deus pequeno,

      aqui vos guarda,

em vez da dor que peno,

      meu extremo anjo de vanguarda.

 

      De que máscara

se gaba sua lástima,

      de que vaga

se vangloria sua história,

      saiba quem saiba.

 

      A mim me basta

a sombra que se deixa,

      o corpo que se afasta.

 

                p. leminski em Distraídos Venceremos.



Escrito por wilton às 11h02
[   ] [ envie esta mensagem ]




DIONÍSIUS ARES AFRODITE

 

aos deuses mais cruéis

 

juventude eterna

 

 

 

eles nos dão de beber

 

na mesma taça

 

o vinho, o sangue e o esperma

 

 

p. leminski em O ex-estranho

 

 

 

LÁPIDE 1

espitáfio para o corpo

 

      Aqui jaz um grande poeta.

Nada deixou escrito.

      Este silêncio, acredito,

são suas obras completas

 

 

 

LÁPIDE 2

epitáfio para a alma

 

      aqui jaz um artista

mestre em desastres

 

      viver

com a intensidade da arte

      levou-o ao enfarte

 

      deus tenha pena

dos seus disfarces

 

p. leminski em La vie en close.



Escrito por wilton às 10h04
[   ] [ envie esta mensagem ]




RUMO AO SUMO

      Disfarça, tem gente olhando.

Uns, olham pro alto,

      cometas, luas, galáxias.

Outros, olham de banda,

      lunetas, luares, sintaxes.

De frente ou de lado,

      sempre tem gente olhando,

olhando ou sendo olhado.

 

      Outros olham para baixo,

procurando algum vestígio

      do tempo que a gente acha,

em busca do espaço perdido.

      Raros olham para dentro,

já que dentro não tem nada.

      Apenas um peso imenso,

a alma, esse conto de fada.

 

p. leminski em La vie en close.



Escrito por wilton às 12h11
[   ] [ envie esta mensagem ]




amara lira dando bandeira

 

eu devia escovar os dentes

porque tomei uma xícara de café amargo

e minha boca traz o travo

desse amargo pelas tardes

mas o travo mais amargo

das bocas que beijei  – e me deixaram

das bocas que deixei

de beijar pois não quiseram

ou quiseram e tive medo

este travo que me impregna boca adentro

de mal amar amargurado

creme algum    dental ou espiritual

removerá

 

 

drummário em lira diluída

 

é inútil amar

mas é tão inútil amar

os que amam sabem disso exasperadamente

desesperadamente sabem que é inútil

absolutamente inútil amar

 

no entanto tanta gente ama

ou busca o amor

estar apaixonado ou provocar

um desejo desmedido

um amar empedernido

demoníaco banal

nobre   celestial

um amor que cobre

a vida e cobre a morte

e a alma   cada palmo da alma

um amor   coisa tão besta

e fora de moda  o amor é tão rico

e faz dos homens pobres homens

pobre do homem

povoado de sedes

um amor um amor um ah! amor

 

Tenho uma sugestão ao furor classificatório da psiquiatria de hoje: considerar os médiuns como esquizofrênicos bem resolvidos, que conseguem viver bem em sociedade e ainda usufruir espiritualmente (e, às vezes, monetariamente) de seus surtos.

 

Quanto à poesia, alguns chamam a coisa de influência, outros de falta de originalidade (ou talento). Eu prefiro ver as inevitáveis visitas dos poetas mortos e outras entidades à moda antiga, como possessões mesmo.



Escrito por wilton às 11h03
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Homem
Histórico
  30/09/2007 a 06/10/2007
  26/11/2006 a 02/12/2006
  12/11/2006 a 18/11/2006
  05/11/2006 a 11/11/2006
  15/10/2006 a 21/10/2006
  24/09/2006 a 30/09/2006
  17/09/2006 a 23/09/2006
  10/09/2006 a 16/09/2006
  27/08/2006 a 02/09/2006
  30/07/2006 a 05/08/2006
  23/07/2006 a 29/07/2006
  16/07/2006 a 22/07/2006
  09/07/2006 a 15/07/2006
  02/07/2006 a 08/07/2006


Outros sites
  Sala Fernando Pessoa
  Ver(de)Poesia
  Incontinência poética
Votação
  Dê uma nota para meu blog